Projeto expositivo e editorial de criação coletivo que se dispõe a abrir arquivos e álbuns de família, memórias que se cruzam com as de um local de Lisboa (Anjos-Arroios). Daí resulta uma reflexão ‘fotográfica’ sobre a história individual de cada um, em relação com a história coletiva e comunitária do seu bairro. Associado ao trabalho de (re)criação fotográfica do material de arquivo recolhido, vem somar-se o olhar contemporâneo, resultado do desafio a vários fotógrafos e artistas residentes.

Sonho de Lúcia

XYZ Books [Pedro Guimarães + Tiago Casanova]

O ponto de partida são alguns negativos, slides e fotos que foram colecionados aqui e ali pelo bairro e no seu entorno, muitos deles encontrados junto a pilhas de lixo. E, tanto quanto se julga saber, sem qualquer relação de proveniência entre si.

Em muitas dessas fotografias há uma personagem feminina que, muito certamente não sendo a mesma pessoa na realidade, pelo menos no campo da ficção poderia perfeitamente sê-lo. E é daí que surgiu a ideia de habitar essa personagem, construindo-a a partir de restos e despojos de memória encontrados pelos cantos do bairro.

Lisboa Canora

Rui & Gonçalo Viana Pereira

Um transtorno na paisagem sonora. A cidade baqueou, permanecendo apenas de pé a floresta de gruas, mudas e quedas contra o céu. Ao contaminar as gentes, o bicho mau descontaminou a paisagem. Existem mais de 25 espécies canoras nas ruas e arvoredos de Lisboa. Sempre lá estiveram, nunca os ouvimos. Como se fossem mudas. É agora ou nunca.

Sonoplastia sobre gravações de campo realizadas durante a quarentena de março/ abril de 2020.

Bairro

Pedro Loureiro

A memória da interculturalidade do bairro junta-se com o presente e a sua vida (ainda) ativa. Se no passado ela ecoa pela toponímia das ruas (celebrando os cinco cantos de um império a definhar: Zaire, Guiné, Angola, São Tomé, Timor, Macau) e por uns quantos habitantes provenientes das ex-colónias, agora celebra outras longitudes, recém-imigrados à procura de uma oportunidade. São lojistas, na maioria estrangeiros, que vêm de fora trabalhar no bairro, abrindo as portas diariamente a negócios em declínio ou a transmutarem-se: pequenas mercearias por lojas de conveniência; sapatarias e retrosarias por lavandarias; ourivesarias por lojas de souvenires.

O conjunto de imagens são destas pessoas que sustentam o bairro de dia e de noite e cujas vidas permanecem quase invisíveis à comunidade que os frequenta.

Sequência para um filme entre o Bem e o Mal

Luciana Fina

Sequência para um filme é uma peça sobre a Palavra na Cidade. Em cenas de um filme imaginário, escrito a partir de documentação recolhida ao longo de 2018 e 2019, tece-se um diálogo sobre o Bem e o Mal, a palavra infecta e ambígua que emerge de um contexto de profundas mutações.

Numa cidade transfigurada pela especulação imobiliária e pela dúbia promessa de prosperidade implícita no desenvolvimento desmesurado do Turismo, centenas de pessoas do bairro perdem a sua habitação e vêem as suas vidas descompaginadas, enquanto assistem à inelutável disfunção do próprio conceito de Cidade.

Espelho de Prata

José Luís Neto

A série fotográfica minimalista “Espelho de Prata” realizada recentemente no Bairro das Colónias tem como referente as telas de proteção de edifícios, cuja superfície prateada, suspensa fina, plana e transparente permite múltiplas projeções e significados.

Hiato

Isabel Aboim Inglez

À hora marcada, a imagem faz-se, repete-se. Mesmo que apenas vejamos a sua ação, nas sombras ou na abóbada celeste, a trajetória acontece. Mesmo que tudo à volta sublinhe a constância, é a transformação que ocorre, metodicamente, todos os dias. O fixo em permanente mutação do movimento dos astros. A diferença.

A fotografia surge como um processo que regista o tempo, a sua passagem, o movimento. Estabelece um cronograma, transforma esse tempo não numa fotografia única mas numa imagem fotográfica em mutação, numa sequência, ou sucessão, um ciclo em suma na existência de uma trajetória do tempo.

Os procedimentos pretenderam que as imagens fossem tiradas de forma quase ‘instantânea’ sem recurso a um aparato dispositivo rígido, mas que acompanhassem e fosse resposta desse olhar. Que a mediação feita pelo aparato não se impusesse ao próprio acto de ver.

Folksongs and Footnotes

Daniel Malhão

Da escala do bairro à rua e ao detalhe num prédio. De uma grande angular ao zoom.

A motivação partiu de uma urgência antiga: fotografar o bairro e a cidade de Lisboa, incidindo sobre edifícios e detalhes urbanos. Esse olhar é mais atento a edifícios considerados ‘interessantes’, não bela sua beleza ou pela sua qualidade arquitetónicas, mas pela sua singularidade, um ou outro pormenor, linha ou traço de personalidade. Por um potencial de ficção.

Rua de Timor

Claudia Fischer

O projeto fotográfico reúne um conjunto de imagens captadas nos últimos anos pela autora na Rua de Timor, Bairro das Colónias, Lisboa, integrando uma pesquisa de imagens de arquivo desde 1933 até à atualidade.